Um cheiro diferente, mais forte depois da relação sexual ou perto da menstruação. Um corrimento fino, meio acinzentado, que molha a calcinha. Pouca ou nenhuma coceira. Se você se reconheceu, pode estar diante da causa mais comum de corrimento em mulheres em idade reprodutiva: a vaginose bacteriana.
Ela é frequente, tem tratamento e não é uma infecção sexualmente transmissível. Mesmo assim, carrega vergonha e confusão. Muitas mulheres a tratam como candidíase por anos, com pomadas que não fazem efeito, até que alguém olhe a lâmina.
Neste artigo, a Dra. Raissa Amaral explica o que é a vaginose bacteriana, como ela é diagnosticada ao microscópio, como se trata e por que ela costuma voltar.
O que é a vaginose bacteriana?
A vaginose bacteriana é um desequilíbrio da flora vaginal. Em condições normais, a vagina é dominada por lactobacilos, que mantêm o pH ácido. Na vaginose, esses lactobacilos diminuem e bactérias anaeróbias, como Gardnerella vaginalis, Atopobium, Prevotella e Mobiluncus, crescem em excesso.
Não se trata de uma bactéria "invasora" que chegou de fora. Muitas dessas bactérias já vivem na vagina em pequena quantidade. O problema é a proporção. Por isso o nome é vaginose (desequilíbrio), e não vaginite (inflamação): em geral, há pouca inflamação, o que explica a ausência de coceira intensa na maioria dos casos.
Para entender por que os lactobacilos são tão importantes, leia flora vaginal e lactobacilos: como manter o equilíbrio.
Quais são os sintomas da vaginose bacteriana?
Os sinais mais característicos são:
- Corrimento fino e homogêneo, branco-acinzentado, que recobre as paredes da vagina.
- Odor de peixe, que piora após a relação sexual sem preservativo e durante ou após a menstruação, porque o sêmen e o sangue elevam o pH e liberam as aminas responsáveis pelo cheiro.
- Pouca coceira ou ardor, diferente da candidíase.
Uma parte das mulheres com vaginose não tem sintoma nenhum, e o achado aparece em um exame feito por outro motivo. Em outras, o odor é o único sinal, e muitas passam a se lavar mais, o que piora o quadro.
O que causa a vaginose bacteriana?
Não há uma causa única. As diretrizes apontam fatores associados a maior risco:
- Duchas e lavagens vaginais.
- Novo parceiro sexual ou múltiplos parceiros.
- Relação sexual sem preservativo.
- Tabagismo.
- Uso de DIU de cobre, em algumas análises.
- Menstruação e queda de estrogênio.
A vaginose não é considerada uma IST pelas diretrizes atuais, embora a atividade sexual influencie a flora. Mulheres que nunca tiveram relação também podem ter vaginose, ainda que seja menos comum.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico não deve ser feito apenas pelo cheiro ou pela aparência do corrimento. O padrão é a avaliação clínica com microscopia, usando os chamados critérios de Amsel, que consideram quatro elementos:
- Corrimento homogêneo, fino, aderido às paredes vaginais.
- pH vaginal acima de 4,5.
- Teste das aminas positivo: odor de peixe ao adicionar uma gota de hidróxido de potássio à secreção.
- Presença de clue cells ao microscópio: células da parede vaginal recobertas por bactérias, com bordas "borradas".
A presença de pelo menos três desses quatro critérios confirma a vaginose. Outra forma é a coloração de Gram da lâmina, interpretada pelo escore de Nugent, que classifica a flora de normal a vaginose com base na proporção de lactobacilos e de outras bactérias.
No consultório da Dra. Raissa, essa avaliação acontece na própria consulta, com leitura imediata da lâmina. Para quem não pode comparecer, a autocoleta em casa com envio da lâmina é uma alternativa. Veja como funciona em microscopia vaginal: o que é e como é feita.
O preventivo e a cultura comum de secreção não são bons exames para vaginose. A cultura, por exemplo, pode mostrar Gardnerella em mulheres saudáveis, já que ela faz parte da flora em pequena quantidade. O que importa é a proporção, e isso só a microscopia mostra.
Como se trata a vaginose bacteriana?
O tratamento é feito com antibióticos que agem sobre as bactérias anaeróbias, como o metronidazol (oral ou em gel vaginal) ou a clindamicina (creme vaginal ou oral), conforme as diretrizes do Ministério da Saúde, da FEBRASGO e do CDC. A escolha depende da sua história, de alergias, de gestação e de tratamentos anteriores.
Alguns pontos práticos:
- Pomadas antifúngicas não tratam vaginose. Elas servem para candidíase.
- Durante o uso de metronidazol oral, o álcool deve ser evitado, segundo a bula e as diretrizes.
- Cremes vaginais à base de óleo podem enfraquecer preservativos de látex durante o tratamento.
- O tratamento de rotina do parceiro masculino sem sintomas não é recomendado pelas principais diretrizes. Estudos recentes avaliam se tratar o parceiro reduz a recorrência em casais estáveis, mas isso é uma decisão individual, discutida na consulta.
- Vaginose sem sintomas, em geral, não exige tratamento fora da gestação ou de procedimentos ginecológicos programados.
Todo esquema deve ser prescrito pela ginecologista. Automedicação com antibiótico é uma das causas de resistência e de recorrência.
Por que a vaginose bacteriana volta?
A recorrência é a parte mais frustrante da vaginose. Uma proporção significativa das mulheres tem novo episódio nos meses seguintes ao tratamento, mesmo quando ele foi feito corretamente. As explicações mais aceitas são:
- As bactérias anaeróbias formam um biofilme, uma camada aderida à parede vaginal que o antibiótico não elimina por completo.
- Os lactobacilos demoram a se restabelecer.
- Os gatilhos continuam presentes: duchas, tabagismo, relações sem preservativo, menstruação.
Nos casos recorrentes, as diretrizes preveem esquemas de manutenção, com uso de antibiótico vaginal em dias programados por alguns meses, além do ajuste de hábitos. O uso de probióticos é estudado, mas ainda não tem recomendação firme como tratamento isolado.
A Dra. Raissa acompanha a flora ao longo do tempo, com microscopias de controle quando necessário, para ajustar a estratégia. O objetivo é reduzir episódios e dar previsibilidade, não prometer que a vaginose nunca mais volte.
Vaginose bacteriana na gestação
Na gravidez, a vaginose está associada a maior risco de parto prematuro, rotura de membranas e infecções após o parto. Por isso, gestantes com sintomas devem ser tratadas, e o esquema é ajustado para a gestação. Se você está grávida e notou corrimento com odor, não use nada por conta própria: procure o pré-natal ou a ginecologista.
Quando procurar a ginecologista
Marque consulta quando notar corrimento com odor de peixe, mudança na quantidade ou na cor do corrimento, ou quando os sintomas voltarem depois de um tratamento. Se você já tratou "candidíase" várias vezes sem melhora, a vaginose precisa ser considerada.
Procure atendimento rápido se houver febre, dor pélvica, dor na relação de início recente, sangramento fora do período, sintomas durante a gestação ou lesões na vulva.
Perguntas frequentes
Vaginose bacteriana é uma IST?
Não. A vaginose é um desequilíbrio da própria flora vaginal, não uma infecção transmitida por um parceiro. A atividade sexual influencia o pH e a flora, por isso novos parceiros e relações sem preservativo aumentam o risco, mas mulheres sem vida sexual também podem ter vaginose.
Posso tratar vaginose com pomada da farmácia?
Não. As pomadas vendidas sem receita são, em geral, antifúngicas e não agem sobre as bactérias da vaginose. O tratamento correto usa antibióticos específicos, que precisam de prescrição e de um diagnóstico confirmado ao microscópio.
O cheiro vai embora com mais higiene?
Não, e lavar mais pode piorar. Duchas e sabonetes internos removem os lactobacilos que restam e mantêm o desequilíbrio. O odor melhora quando a flora é tratada, não quando a vagina é lavada.
Meu parceiro precisa tomar remédio?
Na maioria dos casos, não. As diretrizes não recomendam o tratamento de rotina do parceiro masculino sem sintomas. Pesquisas recentes investigam se isso reduz a recorrência em alguns casais, e a Dra. Raissa pode discutir essa opção em situações de repetição frequente.
Vaginose pode causar infertilidade ou câncer?
A vaginose por si só não causa câncer nem infertilidade. Ela pode, no entanto, aumentar a vulnerabilidade a algumas infecções sexualmente transmissíveis e trazer riscos na gestação, como parto prematuro. Tratar os episódios sintomáticos e cuidar da flora é a melhor forma de reduzir essas consequências.
Se o odor ou o corrimento estão incomodando, agende sua consulta. A lâmina vai mostrar o que está acontecendo.
Fontes e referências
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (PCDT-IST).
- FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia). Protocolo sobre vaginose bacteriana e vulvovaginites.
- CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines: Bacterial Vaginosis.
- ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists). Practice Bulletin: Vaginitis in Nonpregnant Patients.
- OMS (Organização Mundial da Saúde). Diretrizes para o manejo de infecções do trato reprodutivo.
Conteúdo informativo escrito pela Dra. Raissa Sousa Amaral, ginecologista e obstetra (CRM-MG 77617 · RQE 53502). Não substitui consulta médica nem autoriza automedicação.
