"Faço meu preventivo todo ano e agora veio HPV." A Dra. Raissa Amaral conhece bem o que acontece nos minutos seguintes a essa notícia: a busca na internet, as manchetes assustadoras, e uma enxurrada de perguntas. Conto para alguém? Fui traída? Vou passar para o meu parceiro? Estou com câncer?
Respire. O HPV é uma das infecções mais comuns que existem, e a maioria das pessoas que têm vida sexual vai entrar em contato com ele em algum momento. Na maior parte dos casos, o próprio organismo elimina o vírus. Quando ele causa lesões, elas têm tratamento e acompanhamento bem definidos.
Aqui você vai entender o que é o HPV, como se transmite, o que causa, como é diagnosticado e tratado, o que a vacina previne e como conversar sobre isso com quem você se relaciona.
O que é o HPV?
HPV é a sigla de papilomavírus humano. Não é um vírus só: são mais de 200 tipos, dos quais cerca de 40 infectam a região genital. Eles são divididos em dois grupos:
- Tipos de baixo risco, como o 6 e o 11, responsáveis pela maioria das verrugas genitais (condilomas). Não causam câncer.
- Tipos de alto risco, como o 16 e o 18, que podem causar lesões precursoras e câncer do colo do útero, da vulva, da vagina, do ânus, do pênis e da orofaringe.
Ter o vírus não é ter câncer. O câncer do colo do útero resulta de uma infecção persistente por um tipo de alto risco, ao longo de anos, sem acompanhamento. É isso que o preventivo e o teste de HPV procuram interromper.
Como o HPV é transmitido?
Pelo contato direto entre pele e mucosas, em geral durante o sexo vaginal, anal ou oral. Não é preciso haver penetração. O preservativo reduz bastante o risco, mas não elimina, porque cobre apenas parte da região.
Alguns pontos importantes:
- O vírus pode ficar latente por meses ou anos sem causar nada e sem ser detectado. Um diagnóstico hoje não indica quando nem com quem a infecção aconteceu.
- Por isso, HPV não é prova de traição. É um vírus comum em pessoas com vida sexual, inclusive em relações estáveis e de longa data.
- Não se transmite por toalhas, vasos sanitários ou piscinas, segundo o conhecimento atual.
Quais são os sintomas do HPV?
Na maioria das pessoas, nenhum. A infecção é silenciosa e desaparece sozinha. Quando há manifestações, elas são de dois tipos:
Verrugas genitais. Pequenas lesões elevadas, cor da pele ou acastanhadas, isoladas ou agrupadas em formato de couve-flor, na vulva, na vagina, no colo, no períneo ou ao redor do ânus. Em geral não doem, mas podem coçar, incomodar ou sangrar.
Lesões do colo do útero. Não causam sintomas. São descobertas pelo preventivo ou pelo teste de HPV e confirmadas por colposcopia e biópsia.
Corrimento não é sintoma de HPV. Se você tem corrimento, a causa é outra e merece avaliação própria, com microscopia do conteúdo vaginal. Entenda a diferença entre os exames em preventivo detecta corrimento e infecção?.
Como é feito o diagnóstico?
- Exame clínico: a ginecologista identifica verrugas visíveis na vulva, na vagina e no colo.
- Preventivo (Papanicolau): detecta alterações nas células do colo causadas pelo vírus.
- Teste molecular de HPV: identifica a presença dos tipos de alto risco, mesmo antes de haver alteração nas células.
- Colposcopia: exame do colo com aparelho de aumento e soluções que destacam as áreas alteradas.
- Biópsia: retirada de um pequeno fragmento da área suspeita, que confirma o grau da lesão.
Não existe exame de sangue para HPV genital, e a microscopia do conteúdo vaginal não detecta o vírus.
Como são tratadas as verrugas genitais?
As verrugas são tratadas para aliviar o incômodo e reduzir a transmissão. As opções, segundo o Ministério da Saúde e o CDC, incluem:
- Substâncias aplicadas em consultório, como o ácido tricloroacético.
- Cremes de uso domiciliar prescritos pela ginecologista, como imiquimode e podofilotoxina.
- Crioterapia (congelamento).
- Eletrocauterização ou remoção cirúrgica, para lesões maiores ou numerosas.
A escolha depende do tamanho, do número, do local das lesões e de gestação. As verrugas podem voltar após o tratamento, porque o vírus pode permanecer na pele ao redor por um tempo. Por isso o acompanhamento continua.
Como são tratadas as lesões do colo do útero?
Aqui a palavra-chave é acompanhamento. As condutas seguem as diretrizes do INCA e do Ministério da Saúde:
- Lesões de baixo grau: a maioria regride sozinha. A conduta costuma ser repetir o preventivo ou o teste de HPV em intervalos definidos, sem tratar de imediato.
- Lesões de alto grau: são retiradas, em geral por um procedimento chamado excisão da zona de transformação (CAF ou LEEP), com anestesia local. O material retirado é analisado, o que confirma o diagnóstico e trata ao mesmo tempo.
Depois do tratamento, o seguimento com preventivo e teste de HPV continua por alguns anos. Não existe medicamento que elimine o vírus: o que se trata são as lesões.
Como prevenir o HPV?
Vacina. É a medida mais eficaz. No Brasil, o Ministério da Saúde oferece a vacina gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos, atualmente em dose única, e para grupos especiais, como pessoas vivendo com HIV e transplantados, em faixas etárias ampliadas. Na rede privada, a vacina nonavalente está aprovada para pessoas de 9 a 45 anos. Quem já teve contato com o HPV também pode se beneficiar. Converse com a ginecologista sobre o seu caso.
Preservativo. Reduz o risco de transmissão do HPV e protege contra outras ISTs.
Preventivo e teste de HPV em dia. Não previnem a infecção, mas impedem que uma lesão evolua para câncer.
Não fumar. O tabagismo dificulta a eliminação do vírus e aumenta o risco de persistência.
E o parceiro ou a parceira?
Alguns pontos:
- Homens não têm um exame de rastreamento equivalente ao preventivo. Se tiverem verrugas visíveis, devem ser avaliados por um urologista ou dermatologista.
- Mulheres parceiras devem manter o preventivo e o teste de HPV em dia, como todas.
- O uso de preservativo reduz a transmissão, mas em relações estáveis é provável que o casal já compartilhe o vírus.
- A vacinação do parceiro ou da parceira pode ser considerada, conforme a idade.
Contar ou não é uma decisão sua. Se decidir contar, vale levar informação junto: o HPV é comum, costuma ser eliminado e não indica infidelidade.
Quando procurar a ginecologista
Marque consulta se notou verrugas ou qualquer lesão na região genital, se o preventivo veio alterado ou o teste de HPV veio positivo, se está com o preventivo atrasado ou se quer orientação sobre a vacina. Se você recebeu o diagnóstico e está ansiosa, a consulta também serve para tirar as dúvidas com calma.
Procure atendimento rápido se houver sangramento após a relação, fora do período ou após a menopausa, dor pélvica persistente ou corrimento com sangue.
Perguntas frequentes
HPV tem cura?
Não existe remédio que elimine o vírus, mas na maioria das pessoas o próprio organismo o elimina em até dois anos. O que a medicina trata são as lesões que o vírus causa: verrugas e alterações no colo do útero. Com acompanhamento adequado, a evolução para câncer é evitável.
Ter HPV significa que fui traída?
Não. O vírus pode ficar latente por meses ou anos sem ser detectado, então o diagnóstico de hoje não indica quando nem com quem a infecção aconteceu. O HPV é muito comum em pessoas com vida sexual, inclusive em relações longas e estáveis.
Quem já tem HPV pode tomar a vacina?
Sim. A vacina protege contra vários tipos do vírus, e dificilmente alguém já teve contato com todos eles. Ela não trata a infecção atual, mas previne novas infecções pelos tipos cobertos. A indicação e a faixa etária são discutidas na consulta.
Preventivo normal significa que não tenho HPV?
Não. O preventivo detecta alterações nas células causadas pelo vírus, e não o vírus em si. Uma pessoa pode ter HPV com preventivo normal. O teste molecular de HPV é o exame que identifica a presença dos tipos de alto risco. Os dois são usados de forma complementar no rastreamento.
Posso engravidar tendo HPV?
Sim. O HPV não causa infertilidade. Na gestação, as verrugas podem crescer e algumas formas de tratamento são adiadas para depois do parto. A transmissão para o bebê é rara. Se planeja engravidar, converse com a ginecologista.
Recebeu um resultado e não sabe o que fazer? Agende sua consulta e vamos entender juntas o seu caso, com calma e com base na ciência.
Fontes e referências
- INCA (Instituto Nacional de Câncer). Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero; informações sobre HPV e câncer.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (PCDT-IST); Programa Nacional de Imunizações, calendário da vacina HPV.
- FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia). Protocolos sobre HPV, condiloma e lesões precursoras do câncer do colo uterino.
- OMS (Organização Mundial da Saúde). Estratégia global para a eliminação do câncer do colo do útero; recomendações sobre vacinação contra o HPV.
- CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines: Human Papillomavirus Infection e Anogenital Warts.
- SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria). Calendário de vacinação e orientações sobre a vacina HPV em crianças e adolescentes.
Conteúdo informativo escrito pela Dra. Raissa Sousa Amaral, ginecologista e obstetra (CRM-MG 77617 · RQE 53502). Não substitui consulta médica nem autoriza automedicação.
