"Meu preventivo veio normal, então não tenho infecção." A Dra. Raissa Amaral escuta essa frase com frequência, e ela revela um mal-entendido muito comum. O preventivo é um dos exames mais importantes da saúde da mulher, mas ele responde a uma pergunta específica, e essa pergunta não é "por que estou com corrimento?".
Confundir os dois leva a situações frustrantes: mulheres com sintomas que se tranquilizam com um preventivo normal e seguem sem diagnóstico, ou mulheres que recebem um laudo mencionando "Gardnerella" e saem tratando algo que talvez nem precisasse ser tratado.
Neste artigo você vai entender o que o preventivo rastreia, o que ele não faz, por que o laudo às vezes cita micro-organismos e qual exame realmente investiga o corrimento.
O que é o preventivo e para que ele serve?
O preventivo, também chamado de Papanicolau, citologia oncótica ou colpocitologia, é um exame de rastreamento do câncer do colo do útero. Durante o exame ginecológico, a ginecologista colhe células da superfície e do canal do colo com uma espátula e uma escovinha. Essas células são enviadas ao laboratório e analisadas para identificar alterações que podem preceder o câncer, quase sempre causadas pelo HPV.
Segundo as diretrizes do INCA e do Ministério da Saúde, o rastreamento com citologia é indicado para mulheres de 25 a 64 anos que já tiveram relação sexual, com intervalo de três anos após dois exames anuais normais. O Ministério da Saúde vem incorporando também o teste molecular de HPV como estratégia de rastreamento, com intervalos mais longos. A sua ginecologista define o melhor esquema para o seu caso.
O objetivo do preventivo é encontrar lesões precursoras antes que virem câncer, em mulheres sem sintomas. É um exame de prevenção, e ele cumpre muito bem esse papel.
Por que o preventivo não é exame de corrimento?
Porque ele não foi desenhado para isso. A amostra é colhida do colo do útero, e não da parede vaginal, onde a flora é avaliada. O laboratório procura alterações nas células, e não micro-organismos. A fixação e a coloração usadas são pensadas para células, não para ver bem fungos, bactérias ou protozoários.
Além disso, o laudo demora dias ou semanas. Quem está com coceira ou odor precisa de uma resposta no momento da consulta, não um mês depois.
Na prática, um preventivo normal não exclui candidíase, vaginose bacteriana, tricomoníase, clamídia ou gonorreia. E um preventivo que menciona um micro-organismo não confirma que ele seja a causa dos sintomas.
Então por que o laudo às vezes cita Gardnerella ou Candida?
Porque, ao olhar as células, o citologista também vê o que está ao redor delas. Quando nota algo chamativo, ele pode registrar no laudo expressões como "flora sugestiva de vaginose bacteriana", "presença de fungos" ou "flora cocobacilar". Esses são achados incidentais, anotados como informação adicional.
Isso gera duas confusões:
- Falso alarme. A Gardnerella faz parte da flora de muitas mulheres em pequena quantidade. Citá-la no laudo não significa doença. Sem sintomas e sem avaliação, em geral não há o que tratar.
- Falsa segurança. O laudo não mencionar nada não significa flora saudável. O exame simplesmente não procurou isso com a técnica adequada e pode ter deixado passar.
A interpretação desses achados deve ser feita pela ginecologista junto com a sua história e com um exame voltado para a flora.
Qual exame investiga o corrimento?
A avaliação do corrimento começa na consulta, com a conversa e o exame ginecológico. O exame que olha a flora de forma direta é a microscopia do conteúdo vaginal: uma amostra da secreção da parede vaginal é colocada em uma lâmina e analisada ao microscópio, na hora.
Na lâmina, é possível ver lactobacilos, células de defesa, fungos, clue cells (típicas da vaginose) e Trichomonas. Junto com a medida do pH e o teste das aminas, isso diferencia as causas mais comuns de corrimento em poucos minutos. Saiba como funciona em microscopia vaginal: o que é e como é feita.
Quando a lâmina sugere ou não explica os sintomas, a Dra. Raissa pode pedir exames complementares:
- Cultura para fungos com identificação da espécie, nos casos de candidíase de repetição.
- Testes moleculares para clamídia, gonorreia, tricomoníase e Mycoplasma genitalium, que a microscopia não detecta com segurança.
- Avaliação de fatores associados, como glicemia.
Cada exame responde a uma pergunta. Nenhum deles substitui os outros.
Preventivo e microscopia: exames diferentes, ambos necessários
Uma forma simples de guardar a diferença:
- Preventivo: para quem está sem sintomas, de tempos em tempos, para prevenir o câncer do colo do útero. Olha células do colo.
- Microscopia: para quem está com sintomas de corrimento, coceira, odor ou ardor, no momento da queixa. Olha a flora da vagina.
A mesma mulher precisa dos dois ao longo da vida, em momentos diferentes. Em uma consulta pode ser feita a coleta do preventivo e, se houver queixa, a microscopia. O que não funciona é esperar que um faça o trabalho do outro.
O preventivo detecta HPV?
Não diretamente. O preventivo identifica alterações nas células causadas pelo HPV, e não o vírus em si. Para detectar o vírus existe o teste molecular de HPV, que identifica os tipos de alto risco. Os dois podem ser usados em conjunto ou alternados nas estratégias de rastreamento, conforme a idade e a história.
Uma mulher pode ter HPV com preventivo normal, porque o vírus ainda não causou alteração nas células ou porque a alteração não foi captada naquela coleta. Por isso o rastreamento é repetido ao longo do tempo. Para entender melhor o vírus, leia HPV: sintomas, verrugas, tratamento e prevenção.
Como se preparar para cada exame
Para o preventivo, nas 48 horas anteriores evite relação sexual, duchas, cremes e óvulos vaginais, e não esteja menstruada, para que as células sejam bem visualizadas.
Para a microscopia, o preparo é parecido: dois a três dias sem relação, sem produtos vaginais e sem automedicação, para que a lâmina mostre a flora real. Se estiver menstruada, o ideal é aguardar, salvo orientação contrária da ginecologista.
Quando procurar a ginecologista
Marque o preventivo conforme o intervalo orientado para a sua idade, mesmo sem sintomas. Marque uma consulta de avaliação, fora do calendário de rotina, sempre que houver corrimento diferente, coceira, odor, ardor ou dor na relação. Não espere o próximo preventivo para investigar um sintoma.
Procure atendimento rápido se houver sangramento após a relação ou fora do período, dor pélvica, febre, corrimento com mau cheiro na gestação ou lesões na vulva.
Perguntas frequentes
Meu preventivo veio normal. Posso ter infecção mesmo assim?
Sim. O preventivo rastreia alterações nas células do colo do útero e não foi desenhado para detectar infecções vaginais. Candidíase, vaginose, tricomoníase, clamídia e gonorreia podem estar presentes com um preventivo normal. Sintomas pedem avaliação específica com microscopia e, quando indicado, testes moleculares.
O laudo do preventivo disse "Gardnerella". Preciso tratar?
Não necessariamente. A Gardnerella faz parte da flora de muitas mulheres em pequena quantidade, e o laudo apenas registrou a presença. Se você não tem sintomas, em geral não há indicação de tratamento. Se tem sintomas, o ideal é confirmar a vaginose ao microscópio antes de usar antibiótico.
Posso fazer o preventivo com corrimento?
Depende. Um corrimento intenso pode atrapalhar a leitura das células e gerar um resultado inconclusivo. Em muitos casos, a ginecologista prefere avaliar e tratar o corrimento primeiro, com microscopia, e colher o preventivo em seguida. A decisão é tomada na consulta.
A microscopia substitui o preventivo?
Não. São exames com objetivos diferentes. A microscopia avalia a flora vaginal e as causas de corrimento. O preventivo rastreia lesões precursoras do câncer do colo do útero. Ambos fazem parte do cuidado ao longo da vida.
De quanto em quanto tempo devo fazer o preventivo?
Pelas diretrizes do INCA e do Ministério da Saúde, mulheres de 25 a 64 anos que já tiveram relação sexual fazem o exame anualmente e, após dois resultados normais consecutivos, a cada três anos. Com o teste molecular de HPV, os intervalos podem ser maiores. A sua ginecologista ajusta o esquema conforme a sua história.
Está com corrimento ou com o preventivo atrasado? Agende sua consulta e vamos cuidar dos dois, cada um do jeito certo.
Fontes e referências
- INCA (Instituto Nacional de Câncer). Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (PCDT-IST) e orientações sobre rastreamento do câncer do colo do útero.
- FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia). Protocolos sobre rastreamento do câncer de colo uterino e sobre vulvovaginites.
- OMS (Organização Mundial da Saúde). Diretrizes para rastreamento e tratamento de lesões precursoras do câncer do colo do útero.
- CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines.
Conteúdo informativo escrito pela Dra. Raissa Sousa Amaral, ginecologista e obstetra (CRM-MG 77617 · RQE 53502). Não substitui consulta médica nem autoriza automedicação.
