A cólica menstrual, ou dismenorreia, acompanha a maioria das mulheres em algum momento da vida. Para algumas é um incômodo leve nos primeiros dias; para outras é uma dor que derruba, faz faltar ao trabalho ou à escola e vem acompanhada de enjoo, diarreia e dor nas costas.

O problema é que a cólica foi tão normalizada que muita mulher passa anos sofrendo sem investigar. Neste artigo, a Dra. Raissa Sousa Amaral, ginecologista em Belo Horizonte, explica por que a cólica acontece, quando ela pode ser sinal de algo mais, como endometriose ou miomas, e quais estratégias têm evidência para aliviar a dor.

Por que a cólica menstrual acontece?

Durante a menstruação, o útero se contrai para expulsar o endométrio, a camada interna que se formou ao longo do ciclo. Essas contrações são desencadeadas pelas prostaglandinas, substâncias produzidas pelo próprio endométrio e ligadas à inflamação e à dor.

Quanto mais prostaglandinas, mais fortes as contrações, menor o fluxo de sangue para o músculo uterino e maior a dor. As prostaglandinas também explicam os sintomas que acompanham a cólica: náusea, vômito, diarreia, dor de cabeça e mal-estar, porque agem em outros órgãos além do útero.

Quais são os tipos de cólica menstrual?

Dismenorreia primária

É a mais comum e não está ligada a nenhuma doença. Costuma começar de 6 a 12 meses após a primeira menstruação, quando os ciclos passam a ter ovulação. A dor aparece algumas horas antes ou junto com o início do sangramento, concentra-se no baixo-ventre, pode irradiar para a lombar e as coxas, e dura de 1 a 3 dias. Tende a melhorar com a idade e após uma gestação.

Dismenorreia secundária

É a dor causada por alguma condição ginecológica, como endometriose, adenomiose (quando o tecido do endométrio cresce dentro da parede muscular do útero), miomas, pólipos, estreitamento do colo do útero ou doença inflamatória pélvica. Costuma começar mais tarde, em geral depois dos 25 anos, ou mudar de padrão em quem antes tinha cólicas leves. A dor pode começar dias antes da menstruação, continuar depois que ela acaba, piorar progressivamente a cada ciclo e vir acompanhada de dor na relação sexual, ao evacuar ou ao urinar.

Para quem se identifica com esse segundo grupo, vale ler endometriose: o que é, sintomas e tratamento e miomas uterinos: sintomas, causas e quando procurar ajuda.

Quando a cólica é um sinal de alerta?

Cólica é comum, mas alguns sinais indicam que é hora de investigar:

  • Dor incapacitante: que impede você de trabalhar, estudar ou sair de casa, mesmo com analgésico.
  • Cólica que piora com o tempo: cada mês mais forte, ou que passou a exigir remédios mais potentes.
  • Dor que começou depois dos 25 anos ou que mudou de padrão.
  • Dor que não responde a anti-inflamatórios ou ao anticoncepcional: a dismenorreia primária costuma melhorar com esses tratamentos; quando não melhora, há suspeita de causa secundária.
  • Sangramento intenso ou irregular: fluxo que encharca absorventes ou sangramento fora do período junto com a dor.
  • Dor fora da menstruação: dor pélvica que persiste após o fim do sangramento, dor na relação sexual, ao evacuar ou ao urinar.
  • Febre, corrimento com mau cheiro ou dor intensa de início súbito: podem indicar infecção pélvica ou outra urgência e pedem atendimento imediato.

Como aliviar a cólica menstrual?

Existem estratégias com boa evidência, que podem ser combinadas:

1. Anti-inflamatórios

Medicamentos como ibuprofeno, naproxeno e ácido mefenâmico são a primeira linha de tratamento, porque bloqueiam a produção de prostaglandinas. Funcionam melhor quando tomados no início da dor ou, em quem tem ciclo previsível, um dia antes da menstruação, mantidos por 2 a 3 dias. Devem ser usados com orientação médica: pessoas com gastrite, úlcera, problemas renais, asma ou alergia a esses medicamentos precisam de alternativas.

2. Calor local

Bolsa de água quente ou adesivo térmico no baixo-ventre relaxa o músculo uterino e melhora a circulação. Estudos mostram alívio comparável ao de analgésicos em muitos casos, e é uma medida sem efeitos colaterais. Banho quente também ajuda.

3. Contraceptivos hormonais

Pílula, anel, adesivo, injeção, implante e DIU hormonal reduzem a espessura do endométrio e a produção de prostaglandinas, o que diminui muito a cólica. São especialmente úteis para quem também deseja contracepção ou tem fluxo intenso. O uso contínuo, sem pausa, pode suspender a menstruação e, com ela, a dor.

4. Exercício físico

Pode parecer o oposto do que o corpo pede, mas atividade física regular reduz a intensidade e a duração das cólicas. Caminhada, alongamento, ioga e pilates nos dias de dor, e exercício aeróbico ao longo do mês, liberam endorfinas e melhoram o fluxo sanguíneo pélvico.

5. Alimentação

Uma dieta rica em frutas, verduras, grãos integrais e peixes, e pobre em ultraprocessados, pode reduzir a inflamação. Diminuir sal, açúcar, álcool e cafeína nos dias que antecedem a menstruação ajuda a controlar inchaço e irritabilidade.

6. Suplementos

Magnésio, vitamina B1, vitamina E, ômega-3 e gengibre têm estudos pequenos sugerindo benefício na dor menstrual, mas a evidência ainda é limitada. Podem ser uma opção complementar, sempre com orientação, e não substituem o tratamento principal.

7. Outras abordagens

TENS (estimulação elétrica transcutânea), fisioterapia pélvica, acupuntura e técnicas de relaxamento, como respiração e meditação, ajudam algumas mulheres, principalmente quando o estresse amplifica a percepção da dor.

Como é a investigação no consultório?

A consulta começa com a história detalhada da dor: quando começou, como evoluiu, onde dói, o que alivia, como é o fluxo, se há dor na relação ou ao evacuar. Um diário menstrual com esses dados é muito útil. O exame ginecológico e o ultrassom transvaginal identificam miomas, sinais de adenomiose e cistos. Quando há suspeita de endometriose, o ultrassom com preparo intestinal ou a ressonância magnética detalham melhor as lesões.

Com o diagnóstico, o tratamento deixa de ser só para a dor e passa a tratar a causa.

Quando procurar a ginecologista

Marque uma consulta se:

  • a cólica atrapalha sua rotina, mesmo usando analgésico;
  • a dor piorou nos últimos meses ou mudou de padrão;
  • você sente dor na relação sexual, ao evacuar ou ao urinar durante a menstruação;
  • o fluxo é muito intenso ou há sangramento fora do período;
  • a dor continua depois que a menstruação acaba;
  • você toma anti-inflamatório todo mês há muito tempo sem nunca ter investigado a causa.

Febre, dor pélvica intensa de início súbito ou sangramento muito volumoso pedem atendimento de urgência.

Você não precisa aceitar a dor como parte da vida. Agende sua consulta com a Dra. Raissa em Belo Horizonte e descubra o que está por trás da sua cólica.

Perguntas frequentes

Cólica menstrual forte é normal?

Cólica leve a moderada nos primeiros dias da menstruação é comum. Dor que impede atividades, não melhora com anti-inflamatório ou piora a cada ciclo não é normal e merece investigação, porque pode indicar endometriose, adenomiose ou miomas. Normalizar a dor atrasa o diagnóstico em muitos anos.

Qual é o melhor remédio para cólica?

Os anti-inflamatórios não esteroides, como ibuprofeno e naproxeno, são a primeira escolha, pois agem na causa da dor, as prostaglandinas. Funcionam melhor quando tomados logo no início dos sintomas. Analgésicos comuns e antiespasmódicos aliviam menos. O uso deve ser orientado pela ginecologista, principalmente para quem tem problemas de estômago ou rins.

Anticoncepcional acaba com a cólica?

Para a maioria das mulheres, os contraceptivos hormonais reduzem bastante a cólica, porque afinam o endométrio e diminuem as prostaglandinas. No uso contínuo, sem pausa, a menstruação pode deixar de vir e a dor desaparece. Se a cólica persiste mesmo com anticoncepcional, é preciso investigar causas secundárias.

Cólica pode ser endometriose?

Pode. A endometriose é uma das principais causas de cólica intensa, especialmente quando a dor piora com o tempo, começa dias antes da menstruação, vem com dor na relação sexual ou ao evacuar, ou não melhora com os tratamentos habituais. Nem toda cólica forte é endometriose, mas essa possibilidade deve ser avaliada.

Chá, calor e exercício funcionam mesmo?

O calor local tem boa evidência e pode aliviar tanto quanto um analgésico em muitos casos. O exercício regular reduz a intensidade das cólicas ao longo dos meses. Chás de gengibre e camomila têm estudos pequenos com resultados favoráveis, mas não substituem o tratamento quando a dor é forte.

Fontes e referências

  • Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Dismenorreia: protocolo e orientações.
  • American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Committee Opinion 760: Dysmenorrhea and Endometriosis in the Adolescent.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Orientações sobre dismenorreia na adolescência.
  • Ministério da Saúde. Protocolos de atenção à saúde da mulher.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Endometriosis: fact sheet.

Dra. Raissa Sousa Amaral, ginecologista e obstetra em Belo Horizonte. CRM-MG 77617 · RQE 53502.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica, nem autoriza automedicação. Em caso de sintomas, procure sua ginecologista.