Você já ouviu falar em endometriose? O nome parece complicado, mas a doença é comum: segundo a Organização Mundial da Saúde, atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, algo em torno de 190 milhões de pessoas no mundo. Mesmo assim, muitas passam anos ouvindo que a cólica forte é "normal" até chegar ao diagnóstico.
A endometriose vai muito além de uma cólica. Ela pode afetar o trabalho, os estudos, a vida sexual, a fertilidade e a saúde emocional. Neste artigo, a Dra. Raissa Sousa Amaral, ginecologista em Belo Horizonte, explica o que é a doença, como reconhecer os sintomas, como o diagnóstico é feito hoje e quais são as opções de tratamento.
O que é endometriose?
O endométrio é o tecido que reveste o interior do útero e descama a cada menstruação. Na endometriose, um tecido semelhante ao endométrio se implanta fora do útero: nos ovários, nas tubas, no peritônio (a membrana que reveste a pelve), nos ligamentos que sustentam o útero, no intestino, na bexiga e, mais raramente, em locais distantes.
Esse tecido responde aos hormônios do ciclo: a cada mês, inflama e sangra em pequena quantidade, mas o sangue não tem por onde sair. O resultado é inflamação crônica, dor, formação de cicatrizes e aderências, que podem "colar" órgãos uns aos outros, e cistos nos ovários chamados endometriomas.
Quais são os tipos de endometriose?
- Superficial (peritoneal): pequenas lesões na membrana que reveste a pelve. É a forma mais comum.
- Ovariana (endometrioma): cistos nos ovários com conteúdo escuro, conhecidos como "cistos de chocolate".
- Profunda: lesões que invadem mais de 5 milímetros abaixo do peritônio, atingindo ligamentos, intestino, bexiga ou ureteres. É a forma que mais causa dor intensa e sintomas intestinais e urinários.
Quais são os sintomas da endometriose?
- Cólica menstrual intensa: que piora com os anos, começa antes da menstruação e muitas vezes não melhora com analgésicos comuns. Leia mais em cólica menstrual: causas e como aliviar.
- Dor na relação sexual: principalmente na penetração profunda, que pode persistir depois do ato.
- Dor ao evacuar ou urinar: mais intensa no período menstrual; pode vir com intestino preso, diarreia, distensão abdominal ou sangue nas fezes ou na urina durante a menstruação.
- Dor pélvica crônica: dor no baixo-ventre ou na lombar fora do período menstrual.
- Sangramento irregular ou intenso: menstruações longas, escapes ou fluxo aumentado, especialmente quando há adenomiose associada.
- Infertilidade: a endometriose está presente em uma parcela importante das mulheres com dificuldade para engravidar, por causa das aderências, da inflamação e do efeito sobre os ovários.
Como a endometriose afeta a vida diária?
A dor crônica cansa, tira energia e mina a concentração. Muitas mulheres faltam ao trabalho ou à faculdade todo mês, deixam de fazer exercício, evitam relações sexuais por medo da dor e sentem que ninguém acredita no que estão passando. Ansiedade e depressão são mais frequentes nesse grupo, e a infertilidade acrescenta uma camada de sofrimento para quem deseja engravidar.
Como é feito o diagnóstico?
Durante muito tempo, só a laparoscopia (cirurgia por vídeo) confirmava a endometriose, e isso atrasava o diagnóstico em anos. Hoje, as diretrizes internacionais, como a da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), permitem o diagnóstico com base na história clínica, no exame ginecológico e em exames de imagem, sem necessidade de cirurgia na maioria dos casos.
- Exame ginecológico: pode identificar nódulos dolorosos no fundo da vagina e nos ligamentos, e útero com mobilidade reduzida.
- Ultrassom transvaginal com preparo intestinal: feito por profissional treinado em endometriose, mapeia endometriomas e lesões profundas no intestino, na bexiga e nos ligamentos.
- Ressonância magnética da pelve: complementa o ultrassom em casos mais complexos ou para planejar cirurgia.
- Laparoscopia: fica reservada para quando os exames não esclarecem ou quando a cirurgia já é a opção de tratamento; nela, as lesões são vistas, biopsiadas e tratadas.
Não existe exame de sangue que confirme ou exclua a endometriose. O CA-125 pode estar elevado, mas não serve para diagnóstico.
Quais são as opções de tratamento?
O tratamento é individualizado conforme a intensidade dos sintomas, a extensão das lesões, a idade e o desejo de engravidar. Os objetivos são controlar a dor, frear a progressão da doença e preservar a fertilidade.
Medicamentos
- Anti-inflamatórios: para alívio da dor, principalmente no período menstrual.
- Contraceptivos hormonais combinados: pílula, anel ou adesivo, de preferência em uso contínuo, para suspender a menstruação e reduzir a atividade das lesões.
- Progestagênios: como o dienogeste, por via oral, ou o DIU hormonal e o implante, que atrofiam o tecido endometriótico e são muito usados como tratamento de longo prazo.
- Análogos do GnRH: bloqueiam a produção hormonal dos ovários, induzindo uma "menopausa temporária"; usados por tempo limitado, em casos selecionados, geralmente com reposição hormonal em dose baixa para reduzir efeitos colaterais.
Cirurgia
A laparoscopia para remover as lesões, cistos e aderências é indicada quando o tratamento clínico não controla a dor, em lesões profundas que comprometem intestino ou vias urinárias, em endometriomas grandes ou em alguns casos de infertilidade. A doença pode voltar após a cirurgia, e por isso o tratamento hormonal costuma ser mantido depois, quando não há desejo imediato de gravidez.
Fertilidade
Para quem quer engravidar, o plano é diferente, já que os tratamentos hormonais impedem a gravidez. Dependendo da idade, do tempo de tentativas e da extensão da doença, as opções vão de tentativas naturais acompanhadas a cirurgia ou técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro. O congelamento de óvulos pode ser considerado em mulheres jovens com doença extensa que ainda não desejam engravidar.
Cuidados complementares
Fisioterapia pélvica, acupuntura, atividade física regular, alimentação anti-inflamatória e acompanhamento psicológico ajudam no controle da dor e na qualidade de vida. São complementos ao tratamento, com evidência variável, e não o substituem.
Como viver melhor com endometriose?
- Mantenha o tratamento: a endometriose é crônica; interromper a medicação por conta própria costuma trazer a dor de volta.
- Registre seus sintomas: um diário de dor, fluxo e sintomas intestinais e urinários orienta os ajustes do tratamento.
- Cuide do corpo: exercício, sono e alimentação equilibrada reduzem a inflamação e melhoram a dor.
- Cuide da mente: psicoterapia e grupos de apoio ajudam a lidar com a dor crônica e com o impacto nos relacionamentos.
- Converse com a parceria: sobre a dor na relação, posições mais confortáveis e outras formas de intimidade. Veja também dor na relação sexual: causas e quando procurar a ginecologista.
Quando procurar a ginecologista
Procure avaliação se você tem:
- cólica que piora a cada ano ou que não melhora com anti-inflamatório ou anticoncepcional;
- dor na relação sexual, principalmente na penetração profunda;
- dor ao evacuar ou urinar durante a menstruação, ou sangue nas fezes ou na urina nesse período;
- dor pélvica fora da menstruação;
- dificuldade para engravidar há mais de um ano (ou seis meses, se tiver mais de 35 anos);
- histórico familiar de endometriose e sintomas sugestivos.
Dor pélvica intensa de início súbito, com febre ou vômitos, pede atendimento de urgência, pois pode indicar ruptura ou torção de um cisto ou infecção.
Quando a sua dor é levada a sério, o diagnóstico fica mais perto. Agende sua consulta com a Dra. Raissa em Belo Horizonte.
Perguntas frequentes
Endometriose tem cura?
A endometriose é considerada uma doença crônica, sem cura definitiva, mas com tratamentos eficazes. Medicamentos hormonais controlam a dor e a progressão das lesões na maioria das mulheres, e a cirurgia remove lesões em casos selecionados. Os sintomas costumam diminuir após a menopausa, com a queda do estrogênio.
Quem tem endometriose pode engravidar?
Sim, muitas mulheres com endometriose engravidam naturalmente. A doença reduz a fertilidade em parte dos casos, por aderências, inflamação e comprometimento dos ovários, mas existem caminhos: acompanhamento das tentativas, cirurgia quando indicada e reprodução assistida. Quanto mais cedo o planejamento, mais opções.
Endometriose só dá cólica forte?
Não. Além da cólica, a doença causa dor na relação sexual, dor ao evacuar ou urinar na menstruação, dor pélvica fora do período, sangramento irregular, cansaço e infertilidade. Algumas mulheres têm poucos sintomas de dor e descobrem a endometriose ao investigar a dificuldade para engravidar.
Precisa de cirurgia para diagnosticar endometriose?
Não na maioria dos casos. As diretrizes atuais permitem o diagnóstico com história clínica, exame ginecológico e exames de imagem, principalmente o ultrassom transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética. A laparoscopia fica para casos em que os exames não esclarecem ou em que a cirurgia já é o tratamento indicado.
Anticoncepcional trata endometriose?
Os contraceptivos hormonais, principalmente em uso contínuo, e os progestagênios como o dienogeste e o DIU hormonal reduzem a atividade das lesões e controlam a dor na maioria das mulheres. Eles não eliminam as lesões já existentes, mas freiam a progressão. São a base do tratamento de longo prazo para quem não deseja engravidar no momento.
Fontes e referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Endometriosis: fact sheet.
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Endometriose: protocolo e orientações.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose.
- European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). Guideline: Endometriosis, 2022.
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Practice Bulletin: Management of Endometriosis.
Dra. Raissa Sousa Amaral, ginecologista e obstetra em Belo Horizonte. CRM-MG 77617 · RQE 53502.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica, nem autoriza automedicação. Em caso de sintomas, procure sua ginecologista.
