A síndrome dos ovários policísticos, ou SOP, está entre as alterações hormonais mais frequentes em mulheres em idade reprodutiva. Mesmo assim, continua cercada de confusão: muita gente recebe o diagnóstico depois de um único ultrassom, enquanto outras passam anos com menstruação irregular, acne e pelos a mais sem que ninguém junte as peças.
Se você já ouviu falar da SOP, desconfia que tem ou acabou de ser diagnosticada, este texto é para você. A Dra. Raissa Sousa Amaral, ginecologista em Belo Horizonte, explica o que a síndrome é, quais são os sinais, como o diagnóstico deve ser feito e o que realmente ajuda no dia a dia.
O que é a síndrome dos ovários policísticos?
A SOP é um distúrbio endócrino que interfere no funcionamento dos ovários. Em quem tem a síndrome, a ovulação acontece de forma irregular ou deixa de acontecer em alguns ciclos, e costuma haver produção aumentada de andrógenos, os hormônios chamados de "masculinos", que toda mulher também produz em pequena quantidade.
O nome engana um pouco. Os "cistos" vistos no ultrassom são, na verdade, folículos pequenos que pararam de amadurecer. Eles não são tumores, não precisam ser retirados e não indicam doença por si sós: muitas mulheres saudáveis, principalmente adolescentes e jovens, têm ovários com esse aspecto sem ter SOP. Por isso o diagnóstico nunca depende só da imagem.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a SOP atinge algo entre 8% e 13% das mulheres em idade reprodutiva, e uma parcela grande delas não sabe que tem.
Quais são os principais sintomas da SOP?
Os sintomas variam bastante de uma mulher para outra. Os mais comuns são:
- Ciclos menstruais irregulares: intervalos maiores que 35 dias, menos de oito menstruações por ano ou meses seguidos sem menstruar. Em algumas mulheres o sangramento vem com intervalo curto demais.
- Excesso de pelos (hirsutismo): pelos grossos e escuros no rosto, no peito, no abdômen, nas costas ou na parte interna das coxas.
- Acne e oleosidade: acne persistente depois da adolescência, principalmente no rosto, nas costas e no colo.
- Queda de cabelo: afinamento dos fios no alto da cabeça, parecido com o padrão masculino.
- Dificuldade para engravidar: sem ovulação regular, a chance de gravidez em cada ciclo cai.
- Ganho de peso e dificuldade para emagrecer: com acúmulo de gordura principalmente na barriga. Vale lembrar que mulheres magras também podem ter SOP.
Manchas escuras e aveludadas em dobras da pele (pescoço, axilas e virilha), chamadas de acantose nigricans, são um sinal de resistência à insulina e merecem atenção.
Por que eu tenho SOP?
A causa exata ainda não é totalmente conhecida. Há um componente genético importante: ter mãe ou irmã com a síndrome aumenta a chance. Fatores ambientais, como ganho de peso e sedentarismo, podem desencadear ou agravar o quadro em quem tem predisposição.
A resistência à insulina é uma peça central. Quando as células respondem mal à insulina, o pâncreas produz mais hormônio para compensar. Esse excesso de insulina estimula os ovários a produzir mais andrógenos, o que piora a acne, os pelos e a irregularidade menstrual. É um ciclo que se retroalimenta, e é por isso que cuidar do metabolismo faz tanta diferença.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é clínico e segue critérios internacionais (os chamados critérios de Roterdã, atualizados pela diretriz internacional de 2023). É preciso ter pelo menos dois destes três achados, depois de excluir outras causas, como alterações da tireoide, prolactina alta ou hiperplasia adrenal:
- Ovulação irregular ou ausente, que se manifesta como ciclos irregulares.
- Sinais de excesso de andrógenos, no exame físico (pelos, acne, queda de cabelo) ou nos exames de sangue.
- Ovários com aspecto policístico no ultrassom ou, em adultas, níveis elevados do hormônio antimülleriano (AMH).
Em adolescentes, o ultrassom não deve ser usado como critério, porque o aspecto policístico é comum nos primeiros anos após a primeira menstruação. Nesse grupo, o diagnóstico exige irregularidade menstrual e sinais de hiperandrogenismo ao mesmo tempo.
Depois do diagnóstico, a ginecologista costuma pedir exames para avaliar o metabolismo: glicemia e, quando indicado, teste de tolerância à glicose, perfil de colesterol e triglicérides, pressão arterial e medidas de peso e circunferência abdominal. Isso porque a SOP aumenta o risco de diabetes tipo 2 e de alterações cardiovasculares ao longo da vida.
Quais são as opções de tratamento?
Não existe um remédio único para a SOP. O tratamento é montado conforme a queixa que mais incomoda você e o seu desejo, ou não, de engravidar agora.
- Mudanças no estilo de vida: são a base para todas as mulheres com SOP. Alimentação equilibrada, atividade física regular e sono adequado melhoram a sensibilidade à insulina. Em quem está acima do peso, uma perda de 5% a 10% do peso já pode regularizar a ovulação.
- Contraceptivos hormonais combinados: regularizam o sangramento, protegem o endométrio e reduzem acne e pelos. São a primeira escolha para quem não quer engravidar. Para entender os tipos disponíveis, veja o artigo sobre como escolher o método contraceptivo.
- Metformina: medicamento que melhora a ação da insulina; pode ser indicada em casos selecionados, principalmente quando há alteração da glicose ou excesso de peso.
- Tratamentos para pelos e acne: além do contraceptivo, há medicamentos antiandrogênicos e opções dermatológicas e de remoção de pelos.
- Indução da ovulação: para quem deseja engravidar, existem medicamentos que estimulam a ovulação, usados com acompanhamento. Em alguns casos, técnicas de reprodução assistida podem ser necessárias.
Como conviver melhor com a SOP?
Algumas atitudes ajudam a controlar os sintomas e a proteger a saúde a longo prazo:
- Priorize alimentos de verdade: reduzir carboidratos refinados e açúcar e incluir fibras, proteínas e gorduras boas ajuda a controlar a insulina.
- Mexa-se com regularidade: a combinação de exercícios aeróbicos e de força é a que mais melhora a sensibilidade à insulina.
- Cuide do sono e do estresse: dormir mal e viver sob estresse crônico pioram o controle hormonal. Técnicas de relaxamento, ioga e meditação podem ajudar.
- Olhe para a saúde mental: ansiedade, depressão e insatisfação com a imagem corporal são mais frequentes em quem tem SOP. Buscar apoio psicológico faz parte do tratamento.
- Mantenha o acompanhamento: a SOP é uma condição crônica. Consultas regulares permitem ajustar o tratamento conforme a fase da vida.
Se quiser entender melhor o que é um ciclo normal, leia o que você precisa saber sobre o ciclo menstrual.
Quando procurar a ginecologista
Procure avaliação se você:
- fica mais de 35 dias sem menstruar com frequência, ou passa três meses ou mais sem menstruação (fora da gestação e da amamentação);
- notou aumento de pelos grossos no rosto ou no corpo, acne que não melhora ou queda de cabelo;
- está tentando engravidar há mais de um ano sem sucesso (ou há seis meses, se tem mais de 35 anos);
- tem sangramentos muito intensos ou prolongados;
- recebeu o diagnóstico de SOP só pelo ultrassom e quer uma avaliação completa.
Sangramento muito intenso, com tontura ou fraqueza, pede atendimento no mesmo dia.
Quer entender o seu caso e montar um plano que faça sentido para a sua vida? Agende sua consulta com a Dra. Raissa em Belo Horizonte.
Perguntas frequentes
SOP tem cura?
A SOP é uma condição crônica, sem cura definitiva, mas com tratamento eficaz. Com mudanças de hábitos e, quando necessário, medicamentos, a maioria das mulheres consegue regularizar os ciclos, controlar acne e pelos e reduzir os riscos metabólicos. Os sintomas podem mudar ao longo da vida, por isso o acompanhamento é contínuo.
Quem tem SOP consegue engravidar?
Sim. A SOP dificulta a gravidez porque a ovulação é irregular, mas não impede. Muitas mulheres engravidam espontaneamente, especialmente após ajustes no peso e no estilo de vida. Quando isso não acontece, a indução da ovulação com medicamentos tem boas taxas de sucesso, e a reprodução assistida fica reservada para casos específicos.
Ter cistos no ovário no ultrassom significa que tenho SOP?
Não. O aspecto policístico do ovário é comum em mulheres jovens saudáveis e, sozinho, não fecha o diagnóstico. É preciso ter também irregularidade menstrual ou sinais de excesso de andrógenos, e descartar outras causas. Em adolescentes, o ultrassom nem deve ser usado como critério.
SOP engorda?
A síndrome favorece a resistência à insulina e o acúmulo de gordura abdominal, o que torna o ganho de peso mais fácil e a perda mais difícil. Mas não é uma regra: existem mulheres magras com SOP. Em qualquer peso, alimentação e exercício melhoram o quadro hormonal.
Preciso tomar anticoncepcional para tratar SOP?
Não necessariamente. O contraceptivo combinado é uma ferramenta útil para regularizar o sangramento e tratar acne e pelos em quem não deseja engravidar, mas há outras opções conforme o objetivo de cada mulher. A decisão é individual e considera seu histórico de saúde e suas prioridades.
Fontes e referências
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Síndrome dos ovários policísticos: orientações e protocolos.
- International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome (2023), elaborada com apoio da ESHRE e da ASRM.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Polycystic ovary syndrome: fact sheet.
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Practice Bulletin: Polycystic Ovary Syndrome.
- Ministério da Saúde. Protocolos de atenção à saúde da mulher.
Dra. Raissa Sousa Amaral, ginecologista e obstetra em Belo Horizonte. CRM-MG 77617 · RQE 53502.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica, nem autoriza automedicação. Em caso de sintomas, procure sua ginecologista.
